EU NASCI AQUI - CRÔNICAS DE UM FAVELADO

Espaço para os relatos e vivências de um ator social nascido e criado na Maré, uma das maiores comunidades de baixa renda do nosso país que, mesmo em detrimento às difíceis condições que caracterizam esse cotidiano, conseguiu alcançar a formação universitária e hoje trabalha pela afirmação de sua identidade e da cidadania dos moradores de sua comunidade.



Sexta-feira, Agosto 29, 2008

Onde buscar ajuda?


Ontem despertei à 01:30 da manhã por um torpedo de um amigo feliz querendo me alegrar dizendo que minha porcentagem tinha chegado a 90% de aceitação no meu perfil do BBB9. O que meu querido amigo não sabia era que a partir daquele então eu não mais conseguiria dormir e que às 05:45 eu deveria estar de pé para mais um dia de trabalho tentando levar, apesar dos pesares, um referencial positivo a centenas de alunos da comunidade onde nasci, a Maré.
Peguei um livro de temática budista e comecei a ler para ver se o sono retornava, mas nada. Belas imagens passaram pela minha cabeça e pérolas do conhecimento espiritual com certeza se fixaram em minha mente, intensamente. Quando percebi que não conseguiria mais dormir naquela madrugada atípica decidi responder carinhosamente às visitas que tenho merecido em meu perfil no BBB. Liguei o computador e acessei a minha página. Era verdade...Minha porcentagem de sim chegava a 90%. Pensei nos que não contam com centenas de alunos apoiando e impulsionando a realização de um sonho. Alunos que hoje são meus e ex-alunos que acreditam que é possível ter o prof. Diógenes na casa do BBB. Fiquei entristecido por aqueles que sonham e não contam com um apoio extra, mas faz parte da vida! Pensei nos candidatos acima dos 40 anos que também sonham com uma vaga nesse momento da vida em que tudo parece se tornar urgente e lembrei de ter lido uma vez um texto belíssimo sobre a “Decisão da Águia”. Procurei na madrugada o texto e para minha felicidade o encontrei. Mais do que rapidamente entrei no Diário da Produção no site do BBB e no meio de tantos comentários irados, agradecidos, desconfiados, com dúvidas e etc. decidi fazer uma homenagem aos candidatos que como eu estão com 40 anos ou acima dos 40. Postei emocionado meu comentário e me deitei tranqüilo para ver se conseguia dar uma cochilada antes de ter que me levantar para a rotina do dia a dia sempre cheia de surpresas ora agradáveis, ora bastante desagradáveis.
Não consegui dormir profundamente, mas naquele intervalo que vai do sono à vigília ouvi uma vez que sussurrava baixinho ao pé do meu ouvido “Sê simples... Sê simples”. Lembre da Biografia de Sri Aurobindo e da Mãe, instrutora do seu Ashram.
Nunca tive dúvida da simplicidade vencendo barreiras, superando limites. E o que Mãe chamava de simples nada mais é do que uma espontânea alegria na ação, na expressão, no movimento e na vida. Propondo o reencontro dessa condição divina, verdadeira e feliz em nosso interior.
Quando me dei conta já era hora de levantar! Mas... Como “Ser simples” quando nossa época apresenta grandes desafios? Os valores éticos parecem ter desaparecidos, os diversos sistemas de governo parecem inadequados, a violência e a fome aumentam sem limites, a ciência se perde em tecnologia e a Natureza, explorada e vilipendiada, reage.
Já no raiar do dia no ponto de ônibus sou obrigado a ver um idoso fazer sinal para um ônibus e ter seu direito a cidadania negligenciado por um motorista; que não pára para ele. Será que aquele motorista tem noção de que aquela atitude é uma forma de violência ou será que para ele violência é de três a dez mortos em um tiroteio na “favela”?
Meu ônibus chega e meu bom dia ao motorista e ao cobrador não faz diferença para eles, pois seus dias serão de cão, pois eles querem que assim o seja.
No trajeto do Engenho Novo, local onde hoje moro com minha irmã e família, até a Praça das Nações em Bonsucesso, as imagens do caos e descaso social abundam. Moradores de rua dorme aos montes pela cidade e chegando ao Jacarezinho a situação toma ares apocalípticos. Dezenas de crianças e adolescentes que deveriam estar na escola estão espalhados pelas calçadas vitimados pelo “craque”. Corpos sem vida, sem vigor, sem esperança, com fome de dignidade, com fome de cidadania. E o ônibus segue sua trajetória diária até me deixar na Praça das Nações onde a diferença se destaca apenas na indiferença dos transeuntes que já acostumados pulam por moradores de ruas dormindo nas saídas dos túneis da estação do trem e a vida continua.
Na manchete do jornal o assunto que ocupa meia página da página principal é a tatuagem que alguém com espaço na mídia fez para outro alguém com espaço na mídia. A foto é quase da página inteira, mas as eleições estão se aproximando e a luta pelo poder e não pela responsabilidade social já começou, mas isso não tem a menor importância quando comparado a outros assuntos mais interessantes que pululam nos jornais e que são referenciais para nossas crianças e adolescentes. Mas prefiro ainda ter esperança que a mídia impressa, falada e escrita; principalmente a TV e a internet; podem vir a ser no futuro o diferencial que tornará nosso país uma referência mundial em cidadania e civilidade.
Para não chegar atrasado à escola em que dou aula sou obrigado a pegar um transporte irregular, pois os regulares, raramente passam no horário. E ao chegar na comunidade onde nasci e onde hoje não posso morar, pois como trabalho lá, seria impossível, já que a noite toda o apavorante barulho dos tiros impede qualquer cidadão de ter uma noite de sono normal, dificilmente não encontro de dois a três carros em chamas às 07:00 da manhã no encontro da linha vermelha com a linha amarela ao lado do Ciep onde trabalho. O Batalhão da PM da Maré é a 500 metros, mas de que isso adianta. E a vida continua!
Na ilha de esperança cercada de problemas por todos os lados -A Escola, centenas de alunos enfrentando as difíceis condições do cotidiano da comunidade enfrentam também o jogo político das autoridades que ora aprovam e ora desaprovam a tal “aprovação” automática. Na cabeça das crianças a confusão se generaliza e na dos profissionais da Educação a desmotivação chega a níveis alarmantes. Essa é a cara da educação no Rio de Janeiro. Onde buscar ajuda? No sonho?
Na volta para casa a satisfação do dever profissional realizado com dignidade e ética, as lembranças do dia.
No ensaio da montagem do novo trabalho coreográfico (Valsa de uma cidade apavorada) com as crianças do 7º ano para a Mostra de Dança da 4ª CRE agora em setembro, o remédio para todos os males...a Arte, a troca de experiências, as vivências, o corpo em movimento exercitando a cidadania.
Já de volta à “segurança” do lar corro para o computador. O sonho ainda é possível! Acesso à internet e vou procurar meu comentário homenagem aos candidatos acima dos 40 anos que deixei no Diário da Produção do Big Brother “A Decisão da Águia”. Não o encontro. Talvez tenha sido algum erro de grafia. Talvez não tenha se adequado à temática da postagem da produção. Talvez...Talvez...
Tento mais uma vez...Percebi que o título não estava correto. Na ânsia de postar o comentário coloquei “A Decisão da Água”. Acho que foi isso! Agradeço em meu íntimo à produção a não postagem e refaço o comentário, agora com o título correto “A Decisão da Águia”. E agora pela manhã acabo de ver que ele não foi postado.
Que pena! Tenho certeza que teria sido de grande valia não só para os candidatos acima dos 40 anos como para todos os candidatos que freqüentam o site da produção, mas não foi postado...Fazer o quê? Quem sabe em uma outra postagem tenha mais a ver. Bola para frente que a vida continua e a esperança é a última que morre. “Quem acredita sempre alcança, eu sei...”.
Onde buscar ajuda?
Na fé...O homem forte rompe os obstáculos, o homem movido pela fé os atravessa como se não existissem.

postado por: Diógenes Pereira de Lima 1:19 PM Comments:



Domingo, Agosto 24, 2008

postado por: Diógenes Pereira de Lima 10:10 PM Comments:



A Motivação


A Fé e a certeza na justiça divina me motivaram a dinamizar este espaço.
Talvez um basta à exclusão social, uma das várias chagas que marcam o panorama contemporâneo das vivências do homem sobre o orbe terrestre, ou um simples grito de alerta frente à urgente necessidade de se repensar o viver cotidiano na busca por atitudes, práticas e posturas na vida em comunidade verdadeiramente humana, que somem na construção de um mundo mais digno e mais justo. Um mundo que espelhe a grandeza da existência humana, enquanto dádiva do criador; um mundo que transcenda a vida material e que se eleve nas infinitas possibilidades espirituais da natureza humana, onde a dor do outro seja a nossa dor e a felicidade de todos seja a nossa própria felicidade.
No umbral de um novo milênio, quando a aurora de uma era de paz anunciada por tantos sábios, profetas e mestres espirituais da humanidade se inicia, o que se vê no caos que revelam as imagens do viver contemporâneo é aprofunda ignorância frente às divinas leis que regem o universo. Leis, que na unidade de sua essência se manifestam na simplicidade e na beleza de sua imanência revelando em seus princípios caminhos sublimes para a construção de uma sociedade mais digna e mais justa.
Basta uma simples observação na dinâmica da sábia Mãe Natureza.
Mas onde esta o Homem capaz de vislumbrar no doce desabrochar de uma flor a comunhão com a vida?
Onde está o homem capaz de perceber no suave acariciar do vento em seu rosto a mão do criador a lhe dizer te amo?
Onde está o homem capaz de perceber na voz do irmão que vem em seu auxílio a sua própria voz a pedir socorro?
Este homem se perdeu.
Perdeu-se no caminho da ignorância travando amizade com a intolerância e com a ganância na busca desenfreada por satisfações efêmeras ditadas por regras sociais hipócritas de uma sociedade corrompida pelo capital. Uma pseudo–sociedade construída com base em valores puramente materiais. Desumanizou-se queimando no desprezível fogo das paixões mundanas o respeito por sua dignidade humana e a semente do grande amor que herdou do Pai, o doador da vida.
Que este humilde espaço seja um portal para uma dimensão mais ampla do viver em comunidade, onde a troca de vivências e experiência promova a reflexão e a ação organizada comprometida com a justiça social, onde a solidariedade não seja usada como marketing e sim como princípio para a inclusão sócio-cultural e artística no nosso país e por que não no mundo, a partir da apropriação de um bem comum do ser humano – a internet, que como tantos outros bens, milhões de cidadãos do orbe terrestre não têm acesso e se quer sabem da existência.
Propõe-se através da criação deste humilde blog oferecer aos interessados de maneira geral na construção de uma sociedade mais digna e mais justa um espaço democrático que permita um amplo e expressivo debate sobre a ação/atuação social, no sentido de criar mecanismos, formas e meios para vencer a exclusão, bem como um fórum para o intercâmbio de idéias e iniciativas que promovam a inclusão social; criando mais uma referência significativa no processo de afirmação da identidade cultural das comunidades de baixa renda privilegiando as idéias, os talentos e as demandas dessas comunidades através do fomento à integração de seus atores sociais na busca por linguagens, técnicas, dinâmicas, formas e conceitos que nos identifiquem e nos insiram de maneira significativa no panorama do fazer cultural e artístico contemporâneo do nosso país; não só revelando o talento dessas comunidades para enfrentar artisticamente as problemáticas e políticas que os aprisionam ao que tem de mais desumano e injusto no vocábulo “favelado” – A Exclusão social, muitas vezes sutilmente diluída em discursos solidários e projetos de duvidoso objetivo social, cultural e político; como também destacando a nossa capacidade ímpar de organização frente às nossas necessidades e demandas sócio-culturais e artísticas.

postado por: Diógenes Pereira de Lima 3:26 PM Comments:



Sexta-feira, Agosto 22, 2008

· Em 2004 decidi concorrer ao BBB...Enviei um material de qualidade duvidosa confiante na minha singular história. Em 2006 tentei outra vez e cometi o mesmo erro. Mas quando decidi concorrer a uma vaga no BBB8 cuja seleção foi iniciada em 2007 com a novidade do site de relacionamentos que promovia o intercâmbio de informações e a interatividade dos candidatos entre si e a produção do programa através da criação de um perfil online no site do Big Brother; vislumbrei a chance de poder de forma mais dinâmica mostrar quem eu sou e por que acho que mereço uma vaga na mansão mais famosa do país. Desde então já intuía o desassossego que a exposição na mídia me traria. Pesei os prós e os contras, consultei minha família e entendi que a exposição na mídia seria um grande desafio. Quase amarelei! Imagina ter minha privacidade devassada. Mas objetivos de elevada transcendência sócio-cultural e artística me levaram a acreditar que vale a pena enfrentar e rir de todos os pesares para a realização de um sonho profissional que se confunde com um sonho social. Já enfrentei coisas mais difíceis nessa vida.
· Mas nesse mesmo ano de novidades “internéticas” na disputa por uma vaga no BBB8 segui a risca as regras do jogo e montei um perfil interessante, nem melhor e nem pior do que o de ninguém, mas com certeza diferente pra caramba; tentando mostrar tudo o que não tenho para esconder de ninguém. Mas um descuido fatal de colocar a cara a tapa revelando meus endereços eletrônicos profissionais no site acabaram me trazendo dores de cabeça indesejadas. O que eu pensava facilitar a transparência de minha candidatura e de minha trajetória profissional e artística acabaram me trazendo alguns transtornos indesejáveis.
· Algumas pessoas desprovidas de ética e de moral se apropriaram de imagens e endereços eletrônicos meus promovendo uma campanha difamatória e caluniosa sobre minha índole na rede. O jogo é realmente pra gente grande por isso cresci com a experiência e estou aqui de novo enfrentando os leões.
· No início o susto foi grande, mas consegui reverter em parte o susto em estímulo para continuar lutando pela sonhada vaga no BBB mostrando que não tenho absolutamente nada a temer. Minha trajetória profissional e artística atestam isso. Denunciei as calúnias e difamações à polícia e acabei descobrindo que os crimes na internet são muito maiores do que eu imaginava.
· Se ultimamente meus contatos aqui do meu msn profissional têm sido importunados com mensagens difamatórias e caluniosas sobre a minha índole, outras pessoas têm sofrido e tido problemas muito mais complicados que o meu. Desconheço a fonte desse veneno que se justifica talvez na inveja, na incapacidade de realizar, na incapacidade de acrescentar e na certeza de ser insignificante frente à luz e a força do outro.
A essa pobre alma desejo luz infinita para que ainda nessa vida essa pessoa tenha a fortuna de saber, sentir e vivenciar a beleza de Ser Humano....
Que mais posso desejar a uma criatura que vem ao nosso lindo planeta terra para semear a discórdia...promover a desintegração...fomentar o desamor? Luz.
· Por que Luz eu tenho certeza que tenho e peço de coração ao Pai:
· “Daí luz aos meus “inimigos”, pois se eles me perseguem, é por que vivem nas trevas e, na realidade, perseguem a Luz que Vós me destes”.
· Por isso decidi escrever esse breve artigo alerta para a reflexão de quem interessar possa.
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A internet oferece caminhos e cabe ao homem discerni-los na busca por aqueles que o conduzam à luz do conhecimento ou o aprisione nas trevas da ignorância.
Cuidado com as conexões que estabeleces e pense muito antes de clickar no próximo Link!
“Leve vantagem acima de tudo”, e sobre tudo, ignore as palavras do Grande “Falso” Mestre JESUS que promovem a igualdade e a fraternidade impossíveis para a condição humana. Este é o lema das sombras que se oculta sob os mais encantadores véus da ilusão que adornam as belas e sedutoras curvas do irresistível corpo da materialidade que seduz e escraviza o Homem.
Portanto devemos ter muito cuidado com as escolhas que fazemos e com os caminhos que trilhamos. O portal está aberto e basta um “click” para que a conexão se estabeleça, a opção é nossa. Mas jamais nos esqueçamos da Lei de causa e feito, “O homem colhe o que semeia” nos diz o Mestre dos Mestres; e “toda a ação tem uma reação”.
Lembremo-nos sempre na hora de agir que toda ação positiva gera reação positiva e toda ação negativa gera reação negativa. E pensemos com sabedoria e discernimento na hora de acessar as páginas que ajudarão a compor o livro de nossas vidas, para que ao terminarmos de escrever esse livro não tenhamos vergonha de mostrar-lo ao nosso Amado Pai - Criador do Universo e da Vida.
Em nossa bem aventurada jornada evolutiva caminhemos com fé no poder do Amor Incondicional – remédio divino para todos os males da alma; conectando-nos à “redes”, aqui entendidas como pessoas, idéias, ações, iniciativas, projetos e instituições comprometidas com valores éticos e morais de elevada transcendência espiritual que realmente promovam a fraternidade universal e nos conduzam à reforma íntima tão necessária e imprescindível para a realização de nossa meta superior na vida – tornar-nos conscientemente, não apenas atores nos nossos próprios destinos, mas sim colaboradores efetivos da evolução, verdadeiros Co-criadores Universais.

postado por: Diógenes Pereira de Lima 9:20 PM Comments:



Capítulo V – Um ET Brasileiro



Levando-se em consideração a estatura mediana dos mexicanos e os traços característicos que os identificam, eu era um estranho no ninho.
Magro, 1.89 cm de altura, cabelos descolorados em 1994, o que era altamente transgressor na época e uma tendência um tanto quanto extravagante no vestir, faziam de mim um ser “raro”, como diziam os mexicas querendo dizer esquisito ao pé da letra em português.
Aonde quer que eu fosse chamava muita a atenção de todos, e o fato de felizmente ser brasileiro, faziam de mim um “ser”, mais do que especial.
Quem não tinha medo de mim, se atraía, ou melhor, sentia vontade de estreitar laços comigo, saber de mim, ouvir meu espanhol raríssimo e conhecer aquela figura tão exótica e extrovertida que ria de tudo e principalmente de si mesma.
Lembro de um episódio hilário que vivenciei no segundo dia no México.
Minha amiga Lu vivia na casa dos sogros num condomínio de luxo em Tlalpan, na zona sul da cidade, próximo ao campus da UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México) e infelizmente não podia me hospedar, já que a casa não era sua. E isso para ela era um tanto quanto constrangedor.
Lu, como eu, era de origem humilde, era de Guadalupe no Rio de Janeiro e agora vivia uma outra realidade social.
Excelente bailarina e linda; Lu era uma bela representante da beleza feminina brasileira. Mulher moderna e sensual, ela estava vivendo “o pão que o diabo amassou” na casa dos sogros que tentavam na medida do possível reprimir sua sensualidade que à flor da pele emanava por todos os lados sem o menor esforço.
A sogra era uma conceituada professora de psicologia da UNAN e o sogro um dos mais conceituados advogados do país; o cunhado, um playboy universitário muito interessante para os padrões mexicanos e o marido, um ciumento de carteirinha que tinha a família como grande aliada para “administrar” com segurança um casamento com uma bailarina brasileira pós-moderna.
Ao reencontrar Lu nessa nova realidade, me surpreendi e não foi positivamente. Esperava vê-la radiante, poderosa e feliz bem casada. Lembrava dela sedutora, devoradora de homens, sensual e instigante nas turnês do Grupo Dança, sempre desejada e perseguida por homens belíssimos; mas a encontrei diferente, um tanto quanto reprimida e visivelmente deprimida. Não a ponto de ser visível nenhum comportamento ou atitude muito evidente que me atestasse esse diagnóstico de depressão, mas com uma aura diferente, meio pesada que contrastava com a luz que costuma presenciar em seu sorriso e em sua presença.
Depois que tive a oportunidade de estar a sós com ela entendi os porquês.
A saudade do Brasil e da família, o cotidiano social cheio de regras e convenções da tradicional família mexicana e as dificuldades em se fazer entendida, já que não falava espanhol, contribuíram sobremaneira para deixa-la “apagadinha” daquele jeito que a encontrei.
Mas minha chegada com certeza dava um novo ritmo a sua vida. Sempre fui referência de positividade e alto astral aonde quer que eu fosse ou estivesse, mesmo escondendo com maestria, em algumas raras situações, meus problemas e meus receios que se ocultavam por trás de posturas e atitudes altamente irônicas, divertidas e irreverentes que levantavam o astral. Minha capacidade ímpar de rir das minhas próprias desgraças fez de mim um amigo; no mínimo interessante, acredito eu, para aqueles que tive a sorte de merecer como amigos.
Lu passou então a ter um amigo ao seu lado, um parceiro profissional e é claro um cúmplice, no bom sentido. E assim sua estância no México ganhou um novo colorido. Juntos nos divertimos muito e realizamos bastante.
Como minha amiga não podia me hospedar na casa dos sogros, ela e seu marido que haviam ido me esperar no aeroporto, me ajudaram a encontrar um hotel barato próximo de onde eles moravam para eu ficar até o dia seguinte, quando então iria entrar em contato com os responsáveis pela produção do documentário e decidiria melhor minha estadia na cidade.
A solução mais conveniente foi dormir num motel de quinta categoria. Bem mais barato! E no dia seguinte decidir onde ficar.
Dormir num motel de quinta, tudo bem! Mas com bagagem de quem veio de “mala e cuia” era um tanto quanto esquisito. Mas! Fazer o quê? Rir é claro.
Dormi o sono dos anjos. A altitude em nada afetou meu bioritmo e com certeza isso foi impressionante. Fora à pequena diferença de quatro horas no fuso horário, nada me causou estranheza.
Despertei pela manhã ansioso. Estava no México. Outra realidade cultural, outras perspectivas profissionais. Um grande amor, quem sabe? Tudo era novo, tudo era mágico. Levantei, tomei banho, me arrumei, taquei gel no cabelo descolorado a lá Bily Idol penteado para trás e liguei pra Lu que já tinha uma boa notícia pra mim. O marido dela já tinha conseguido um quarto numa casa para alugar e à tarde agente ia conhecer o local que era mais ou menos a duas quadras do condomínio em que eles moravam. Melhor impossível!
Em 20 minutos eles estariam passando na porta do motel pra agente ir a um Vip’s, rede de restaurantes, do tipo loja de conveniências, característicos da Cidade do México, onde tomaríamos o fantástico “desayuno” mexicano que na verdade é a mais completa refeição do dia para eles - o nosso café da manhã.
Abri a porta do quarto e dei de cara com uma camareira nativa. Uma senhora indígena que mais parecia uma personagem saída de um filme sobre a vida de Emiliano Zapata e falei sorridente “buenos días senhora”, crente que estava arrasando. O único som que mereci daquela primeira pessoa a quem dirigia a palavra na Cidade do México foi um grito estridente de pavor. A senhora com baldes e vassouras saiu correndo alucinada como se estivesse vendo um extraterrestre e eu assustado com a reação dela tentava uma aproximação, o que na verdade só piorava a situação. A ensandecida criatura que mais parecia uma anã perto de mim, balançava a cabeça enlouquecida e repetia intermitentemente: “No te entiendo! No te entiendo! No te entiendo!” Quanto mais eu tentava ser compreendido, mas a criatura se desesperava e sacudia os apetrechos de limpeza como que querendo espantar os maus espíritos, no caso aqui, euzinho é claro.
A situação só se resolveu quando o gerente do motel se aproximou educadamente e interviu na situação. “Buenos días señor! Puedo ayudarle”. A senhora, graças a Deus, desapareceu pelos corredores do motel e então pude respirar aliviado. Pelo escândalo que aquela senhora fez, eu realmente era muito “raro”, como dizem eles, muito esquisito mesmo. Putz! Que viagem!
O gerente me conduziu educadamente ao hall de entrada do motel e enquanto esperava minha amiga e seu marido, expliquei-lhe o ocorrido. É claro que o rapaz riu a cântaros da situação e tentou me explicar que aquela humilde senhora era provinciana e mal sabia falar o espanhol direito.

postado por: Diógenes Pereira de Lima 3:52 PM Comments:



Capítulo III - Estranha sensação



Impossível esquecer aquela rara sensação de “dejà vu”.
Fazia alguns poucos minutos que havíamos desembarcado na Cidade do México e rumávamos para o Hotel Havre no centro da capital mexicana.
A cada paisagem que se descortinava, a cada rosto que vislumbrava, a cada esquina que dobrava naquela atmosfera tão familiar do Vale do México, aquela estranha sensação aumentava e minha compreensão se confundia num misto de satisfação e surpresa.
O Grupo de Dança da UFRJ chegava à grande capital da republica mexicana para uma participação no evento Cubbalet e todos os integrantes da trupe desfrutavam sua primeira viagem internacional.
Recém integrado ao elenco profissional da Cia, eu vivia naquele então um dos maravilhosos momentos mágicos de minha vida, onde minha trajetória artística profissional se iniciava, como que surgida do nada, de um passe de mágica, de uma dessas coincidências da vida que transformam, redirecionam e redimensionam nossa existência.
A favela a até bem pouco tempo era meu único referencial sócio-cultural e artístico. Nela absorvi a riqueza da diversidade cultural do nosso país e testemunhei a força da dignidade do povo brasileiro.
Aluno da rede pública de educação, beneficiado pela caixa escolar, que naquele então custeava uniforme e livros dos alunos mais pobres; consegui com dignidade e muito esforço, superar as adversidades do cotidiano que caracterizavam minha comunidade, a favela da Maré; e fui aprovado para o curso de Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro no ano de 1985.
Na universidade novos horizontes se abriram e lá comecei a ter dimensão da exclusão social a que era submetida a favela e seus moradores, vivendo na pele o preconceito por ser oriundo de uma dessas comunidades. Nela entendi a importância do conhecimento como instrumento para a afirmação da identidade e da cidadania. Mas foi a minha natureza artística a grande descoberta nesse outro universo social.
Beneficiado por uma bolsa de iniciação artística/dança; comecei minha trajetória artística no Grupo de Iniciação a Dança da UFRJ em 1989 sendo absorvido pelo Grupo Profissional em 1991, devido ao meu talento expressivo, na montagem da Palestra Coreógrafa “Fundamentos da Dança” que seria apresentada no evento Cubbalet naquela estadia na Cidade do México.
Cada minuto que passava respirando o ar rarefeito da altitude andina parecia desvelar motivos e justificar vivências anteriores que explicavam tudo aquilo que estava sendo vivido e aquela estranha e gostosa sensação.
Os porquês de vivências do passado pareciam encontrar respostas imediatas, e a expansão da percepção aumentava, em níveis nunca antes imaginados, a certeza de estar crescendo como ser humano.
Agora entendia claramente por que a paixão pela língua espanhola que me levou a me licenciar em português e espanhol pela faculdade de letras da UFRJ.
Agora entendia como que numa explosão de percepção, as coincidências e os sincronismos que me conduziram àquela experiência.
Era como se todo o tempo o universo tivesse conspirado minuciosamente para que eu estivesse ali naquele instante cósmico respirando a atmosfera da “Gran Tenostitlán”, descobrindo em cada detalhe visual, sonoro e tátil, uma profunda conexão com a história pretérita daquela cultura que começava a experimentar.
Era só o início de uma série de maravilhosas vivências que interligadas vão construindo uma estória, minha estória. Estória nem melhor nem pior que outras estórias, apenas uma simples estória de alguém que gosta de contar histórias.
Dos três anos vividos na Cidade do México guardo lembranças surrealistas. As parcerias artísticas, os amigos, a clandestinidade, o medo, a paixão e a saudade discreta do Brasil.
Cheguei ao México na primeira viagem de 15 dias para o evento Cuballet e logo vivi coincidências fantásticas que atestavam minha conexão passada, totalmente desconhecida, mas intuída e percebida; e principalmente as conexões futuras que se evidenciavam em alguns sinais que o momento ia me dando.
Difícil esquecer a magia da visita a Teothiuachan. Minha natureza mística e esotérica jamais se conformaria com ir ao México e não conhecer os vestígios das civilizações pré-colombinas. Sentir a vibração daquelas culturas e viajar no tempo visitando os sítios arqueológicos. Coloquei pilha nos demais bailarinos e nos organizamos para ir a Teothiuachan. Eu era o intérprete tradutor da turnê e logo consegui informações de como poderíamos chegar lá.
O dia não era dos melhores, estava chuvoso, mas a aura de magia fantástica. Eu corria, gritava, chorava e parecia não acreditar que estava diante da pirâmide asteca dedicada à Deusa Lua, e ao fundo a alguns metros distância a grande pirâmide do Deus Sol.
No centro da “cidade” asteca, difícil não achar que todo aquele espaço livre entre as construções, fosse uma pista de pouso. Intrigante! Mas pouso de quê? Por quê tanta familiaridade com aquele lugar? Eu heim!!!
Fiquei surpreso com a atitude Blasé de alguns bailarinos que nem de longe esboçavam a reação alucinada que tive e apenas atuavam como turistas contrastando completamente com meu entusiasmo e com a minha emoção em estar naquele intrigante e misterioso lugar.
Subi a pirâmide da lua emocionado e de lá pude ver, com sensibilidade aguçada pela vibração do feminino presente e a deliciosa sensação do “dejá vu”, a ampla visão daquele mágico lugar que outrora havia sido uma grande cidade onde floresceu uma das mais nobres culturas da fase da terra, a Asteca. Cultura essa profundamente conectada ao cosmo em seu cotidiano de ritos em harmonia com a dinâmica do universo.
Do topo da pirâmide da lua vislumbrei a grandiosidade da pirâmide do sol que me esperava imponente para consolidar outro momento sublime de sincronismo em minha vida.
Dos seis integrantes do Grupo que fizeram a visita ao famoso sitio arqueológico, apenas eu e uma amiga chegamos ao topo da fabulosa pirâmide do sol, os demais não tiveram vontade ou talvez inconscientemente não se achavam dignos de merecer as poderosas vibrações daquele mágico lugar. Uma foto registra, eu e minha amiga abraçados no topo da pirâmide. “Essa foto representa o sucesso de nosso grupo em sua primeira viagem internacional”, afirmou minha amiga, segundos antes de um turista simpático e solícito nos fazer a gentileza de registrar aquele momento.
Na verdade aquela foto representava muito mais que isso e num desses maravilhosos sincronismos da vida, eu e aquela minha amiga desenvolvemos uma significativa história na capital mexicana. Retornamos mais ou menos um ano depois ao II Encontro Internacional de Dança Contemporânea na Universidade Nacional Autônoma do México com o Grupo Dança da UFRJ e nesse evento nossas vidas começavam a tomar rumos que nos levaram a nos reencontrar na capital mexicana alguns anos depois. Ela nesse encontro se apaixonou por um organizador de eventos e se casou com ele vindo a morar na capital mexicana e eu fui convidado pelo secretário geral do ITI-Unesco para protagonizar um documentário sobre a vida de “San Sebastián”.
O convite mexia com toda a dinâmica da minha vida. Emprego fixo no Brasil. Eu era um dos bailarinos do Grupo Dança da UFRJ, funcionário da Universidade Federal do Rio de Janeiro contratado como coreógrafo-bailarino, não concursado, acredite se quiser! E tinha sido um dos beneficiados pelo famoso e questionado “trem da alegria” da gestão do saudoso professor Horácio de Macedo, Reitor da Universidade naquela ocasião. Reitor que com certeza dinamizou como ninguém antes e muito menos depois o verdadeiro papel da Universidade enquanto promotora, fomentadora e divulgadora da cultura através de diferentes projetos de incentivo e apoio a iniciativas sócio-culturais e artísticas desenvolvidas no seio da universidade que tornaram sua gestão um grande marco na história da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Funcionários temporários e bolsistas 40 horas, como os integrantes do Grupo Dança de Dança Contemporânea e a Cia de Danças Folclóricas da UFRJ entre outros profissionais de áreas administrativas que trabalhavam com afinco pela instituição foram efetivados gerando muitas discussões e debates na própria universidade e na sociedade de maneira geral sobre a polêmica decisão do corajoso reitor que jamais se eximiu de defender e justificar sua posição veementemente entre partidários e opositores que viam naquela atitude uma jogada política populista para fortalecer sua posição esquecendo outros aspectos sociais e trabalhistas que se não justificavam de todo a difícil decisão tomada em efetivar esses profissionais, pelo menos em parte, a explicava.
Lembrar da Universidade Federal do Rio de Janeiro no período em que cursei a Faculdade de Letras, de 1985 a 1989 e posteriormente como funcionário até 1994 quando, num ato de coragem e intuição, decidi pedir exoneração e partir para a Cidade do México em busca de novas vivências; é lembrar de um período dinâmico da sociedade Brasileira.
Minha geração é a de Cazuza, de Renato Russo, entre outros grandes atores sociais de diferentes áreas de atuação, que tiveram seus heróis mortos por overdose e sucumbiram com dignidade e alta dose de criatividade à Aids, peste do século que tantos talentos nos levou.
Minha geração gritou nos históricos comícios “Diretos Já” e promoveu uma das maiores revoluções políticas de nossa sociedade conquistando com criatividade, talento e atitude, o democrático direito de eleger o representante do povo brasileiro.
Desse período recordo com saudades a enriquecedora vivência no Aló, como era vulgarmente conhecido o alojamento dos estudantes da UFRJ, e a fantástica dinamização sócio-cultural e artística que caracterizava o cotidiano universitário daquele então. Mas isso é assunto para outros capítulos. Capítulos hilários, assustadores e com certeza cheios de humanidade que ainda virão nessas despretensiosas crônicas de um favelado.
Impossível negar que a vitória de FHC nas eleições de 1993 me ajudou a decidir com mais certeza que o melhor para a dinamização da minha vida era a ida para a Cidade do México.
Seria impossível continuar no Brasil depois de tamanha decepção e a viagem antes da posse do então eleito presidente foi como um bálsamo para o meu espírito social cheio de esperanças num Brasil justo e digno que se recusava a se curvar frente à “nova” realidade, não sonhada e nem desejada, que se desenhava em nosso país com a gestão do novo presidente.
Contrariando minha natureza supersticiosa, desembarquei em agosto de 1994, “mês do desgosto”, na Cidade do México sendo recebido no aeroporto por minha amiga Lú já casada com seu “príncipe” mexicano e vivendo na capital mexicana . Você lembra dela? A da foto comigo no topo da pirâmide do sol na primeira viagem em 1991? Pois é! Olha nós dois ali juntos novamente na “Gran Tenostitlán” dando início a uma história ímpar, cheia de encontros e desencontros, conquistas e decepções. Coincidência, não? E que deliciosa coincidência!
Ali começava um capítulo fantástico da minha vida.

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Capítulo II – A grande Dama da Dança



Helenita não dançava apenas, se divertia intensamente e com uma facilidade surpreendente. Mas não se divertia a revelia de nada, seguia uma intuição técnico-expressiva única administrada por uma personalidade ímpar; inovadora no seu tempo, pioneira no seu campo de atuação.
Helenita é um desses anjos que a vida coloca no nosso caminho e que começam a dar sentido a nossa vida.
Ainda que a vida nos faça seguir outros caminhos, a presença daquela doce presença segue nossos passos lentamente mostrando a grandeza de ser e de acrescentar, de ampliar e de orientar, de educar para a vida e lapidar para arte.
Meu encontro com ela foi mágico. Amor artístico à primeira vista.
Helenita aos setenta anos esbanjava jovialidade. Técnica e Arte se harmonizavam num corpo experiente, forte e expressivo. O tempo parecia sucumbir frente ao talento e à aptidão para o movimento daquela Dama da Dança Brasileira.
O meio acadêmico se curvava reverente, e o meio “artístico” ignorava negligentemente a força, o valor e a importância da contribuição dada por ela ao ensino da Dança e particularmente à filosofia da dança no processo educacional.
Confesso não entender até hoje a ausência de seu nome nas principais bibliografias e referências que compõem os alicerces da Dança Brasileira, mas quando percebo as conveniências políticas e as “invejas” que habitam o “metier” da provinciana dança brasileira, entendo a incapacidade de alguns em perceber, valorizar e exaltar o trabalho de um dos maiores ícones da Dança em nosso país.
Sei que ainda será resgatada de forma sublime, ética e coerente toda a trajetória sócio-educacional e artística dessa que sem dúvida é uma das grandes damas da dança brasileira, ainda que desconhecida do grande público e o que é pior, dos jovens profissionais da dança.
Difícil esquecer as esclarecedoras primeiras aulas que tive com Helenita Sá Earp. Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Helenita se recusava a se aposentar e para sorte minha, tive o privilégio e o grande prazer de merecê-la como educadora nos meus primeiros contatos com a dança.
“Todo mundo é capaz de se mexer, mas nem todo mundo é capaz de dançar”. Essa foi a primeira grande abertura de consciência que me foi presenteada por Helenita.
Sua capacidade singular de filosofar através das analogias para explicar o movimento e seus princípios era hipnótica. A disciplina e o respeito à força e ao valor do processo educacional eram talvez o grande tempero que somado à sua infinita sensibilidade para o movimento e para a arte a tornavam uma mulher/educadora realmente especial.
As grandes preocupações de Helenita com seu aluno eram com certeza filosófico- artísticas na formação do ator social; e é importante destacar aqui, que apesar de ela ser naquela ocasião, professora do Grupo de iniciação à Dança da UFRJ com aproximadamente 20 bolsistas e do qual eu fazia parte, Helenita me dava aulas extras três vezes por semana num horário em que felizmente somente eu estava com ela.
Nossa forte ligação já tinha se estabelecido, talvez, desde o primeiro instante; e a cada novo encontro, nossos laços de afinidade se fortaleciam. Helenita foi sem dúvida a grande responsável pelo desabrochar da minha auto-estima. Vindo da Maré, uma das mais pobres e complexas comunidades de baixa renda do nosso país, por mais que tivesse a potencialidade artística e o talento para o movimento, era necessário um grande arquiteto para aparar as arestas, lapidar a forma e revelar o artista inerente em mim. E esse papel ela desempenhou com perfeita maestria.
Dela mereci estímulos e comparações que hoje me orgulham, mas que na ocasião me eram apenas intuitivamente positivos tendo em vista a verdade inerente no tom de suas palavras e na sinceridade vislumbrada em seus olhos: - “Diógenes! Já vi grandes bailarinos dançando, mas poucos me impressionaram. Dois não esquecerei jamais: José Limón, que tive a oportunidade de ver dançar em uma turnê que fiz com o Grupo Dança da UFRJ por 27 universidades americanas, ele era fantástico no palco, uma pantera; e você!”. - “Eu Helenita!?” – “Sim Diógenes. Você é um grande bailarino, por que você entra com facilidade no plano do movimento. Mas preciso te dizer uma coisa. O maior obstáculo a vencer por um grande bailarino é a vaidade. Saiba dosar a vaidade necessária ao bailarino para o palco e a bani-la de sua vida cotidiana. Seja humilde sempre e dance no palco de uma escolinha do interior com a mesma força que dançarias se estivesses no palco do Teatro Municipal”.

Obrigado Helenita! Ali começava uma das mais deliciosas e enriquecedoras relações da minha vida. A cada desejado encontro, novas descobertas sobre mim mesmo e novas orientações sobre filosofia da arte. Helenita aplicava em mim doses massiças de estímulos artísticos e tinha uma capacidade tão grande de me fazer perceber as potencialidades do meu talento para a expressividade do movimento que acabou se tornando uma obsessão positiva na minha vida. Rapidamente percebi o tesouro que tinha merecido da vida. Confesso que não tinha ainda dimensão do seu valor e de sua importância, mas minha intuição e minha sensibilidade me levavam a respeitar e a desejar aquela presença/referência em minha vida.
O rapaz magérrimo, tímido e encurvado, com a auto-estima literalmente na “lama” de sua origem ainda não compreendida social e intelectualmente, ganhou em tempo recorde, ares de “top model”.
Postura corrigida, deslocamento harmônico no eixo, graciosidade nos movimentos simples do cotidiano, fala pausada e reflexos de influência refinada na linguagem oral foram me tornando o “filho do caso de amor que Helenita teve com o movimento”.
Lembro com carinho dos olhos brilhantes de alegria e orgulho quando lhe fiz essa afirmativa: “ Helenita! Às vezes tenho a sensação de que sou seu filho. Um filho do caso de amor que você teve com o movimento”. Ali escutei uma de suas mais acertadas profecias: “Diógenes! Você vai estar dançando no próximo espetáculo do Grupo Profissional de Dança da UFRJ”. O que era quase impossível, já que nunca tinha feito Dança aos 21 anos e estava a apenas quase um ano no grupo de iniciação artística. Mas para minha surpresa, a profecia se realizou o mais rápido que eu imaginei e estreei em 1990 no Espetáculo “Imagens do Homem, Imagens da Terra” no Teatro Cacilda Becker dando inicio a minha trajetória artística profissional como bailarino do Corpo Dança da UFRJ.



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Capítulo I - O Ato vivo da performance



Relembrar experiências vividas; sejam elas de que índole for, é sempre muito interessante, principalmente quando se tem plena consciência de que a partir desse relembrar, se pode repensar, reavaliar e afirmar as “marcas” indeléveis deixadas por essas vivências. Marcas essas que, carregadas de significados e significantes, compõem hoje o manancial de elementos que formam nossas múltiplas personalidades (O eu pai, o eu filho, o eu amigo, o eu artista, o eu ator social, o eu...) e que revividas acabam revelando aspectos ocultos e importantes dessas vivências que até então passaram desapercebidos pelo consciente, mas que seguramente habitam o rico e maravilhoso universo do inconsciente.
A Dança, enquanto possibilidade do movimento do corpo humano em plena integração consigo mesmo e com o universo, sempre me fascinou. Mas é óbvio que essa fascinação na infância tinha conotações e denotações diferenciadas da fascinação exercida na adolescência ou da fascinação que exerce agora na fase adulta.
Os primeiros lampejos de interesse pela Dança, enquanto arte; manifestaram-se no primeiro contato que tive com a linguagem contemporânea do movimento, mais precisamente quando tive o prazer de assistir o Grupo Dança da UFRJ em uma de suas maravilhosas apresentações no campus da universidade no período em que cursava a Faculdade de Letras.
A Dança que diziam ser Arte e a qual tinha acesso em raros momentos quando aparecia na televisão, decididamente não me fascinava. Parecia-me “sem graça” e hoje, a partir de outra perspectiva, com um olhar mais crítico e mais fundamentado pelas experiências vividas no universo da Arte, consigo entender o porque da “sengrasisse”. Era estéril, limitada e muito comprometida com a superficialidade. Conseguir assistir a dois minutos de Ballet na infância era mais torturante do que ter que fazer as tarefas de casa da escola. Mas as tarefas de casa eram uma obrigação e tinha que suportar, não tinha geito, já assistir ao Ballet, graças a Deus não era uma obrigação, e então nunca tive que assistir.
Mas o contato com a humanidade e com a emoção da Dança contemporânea, isso sim revolucionou e mudou completamente o rumo e o sentido da minha vida.
Depois do forte impacto emocional da experiência estética vivida, não era de ser esperar outra coisa senão um forte entusiasmo em estreitar relações com aquele tipo de arte. Foi então que, em bem pouco tempo, me vi completamente absorvido pelo universo da Dança e suas maravilhosas conseqüências em minha vida.
Os primeiros passos como bolsistas de iniciação artística no Grupo Dança da UFRJ me colocaram frente a um mito da Dança Brasileira, Helenita Sá Earp, que com simplicidade e muita reverência ao processo educacional, me orientou, me guiou e me educou para o movimento universal, a dança inerente em mim.
Trabalhando como monitor na produção divulgação do Grupo Dança da UFRJ pude estar em contato direto com o fazer artístico, tanto na sua produção, quanto na sua extensão. A vida me dava um curso intensivo; e eu ainda não tinha noção.
Hoje posso afirmar sem titubear que sou um cara de muita sorte. E os sincronismos da vida que me levaram a estrear como bailarino um pouco mais de um ano depois de ter vivido aquela sublime experiência estética assistindo ao grupo representativo da universidade confirmam isso.
Mas foi ainda como assistente de produção que tive uma das mais belas experiências estéticas da minha vida.
O cenário não poderia ser mais maravilhoso para uma experiência dessa índole - a praça da cinelândia no centro do Rio de Janeiro, espaço vivo e dinâmico onde corpos se cruzam, olhares se procuram e a urbe se caracteriza num constante vai e vêm de carros, pessoas, sonhos e esperanças.
Na ocasião, um evento organizado para divulgar as produções artísticas e culturais da UFRJ, na gestão do saudoso reitor Horácio de Macedo, acontecia num palco montado em frente a Câmara Municipal. No programa, que incluía várias atrações, o Grupo Dança e a Cia de Danças Folclórica da UFRJ se apresentariam. Além de estar vivendo um momento mágico da minha própria história e da História política de nosso país que na ocasião fervilhava com o povo nas ruas gritando por “Diretas Já” tive a oportunidade de presenciar uma das mais belas performances dancísticas que já assisti na vida.
No palco, a Cia de Danças Folclóricas da UFRJ dançava o jongo, uma bela coreografia resultante do trabalho de pesquisa sobre as raízes culturais negras do povo brasileiro. O público transeunte que parava ávido por cultura; aplaudia amontoado em frente ao palco a Cia Folclórica e pedia bis, enquanto atrás desse mesmo público, esquecida e marginalizada pela sociedade uma moradora de rua negra, que trazia na pele o ranço da discriminação racial e da exclusão social; bailava leve, linda e sorridente sua raiz, sua origem e sua dignidade cultural, o verdadeiro jongo no ato vivo de uma improvisação performática mais do que espontânea e autêntica.
Agradeço ao sincronismo da vida e suas fantásticas lições por ter estado ali naquele momento mágico e único como aprendiz da vida assistindo, talvez sozinho, pouco importa, a tão autêntica e enriquecedora performance dancística.
Hoje, quando a linguagem da performance se fundamenta em minha vida como o fio condutor do meu fazer artístico, só tenho a ganhar e a crescer ao relembrar e reviver a emoção e a verdade daquela experiência vivida. Hoje posso entender um pouco melhor a reflexão que propõe Peter Brook, por que presenciei naquele então o ato vivo da performance em sua máxima espontaneidade. Cresci enquanto ator social naquele instante significativo; ampliei minha percepção artística e passei a entender e a buscar no meu fazer artístico a partir de então, a essência daquela força e daquele valor expressivo do ato vivo performático.
Claro que outras experiências significativas se sucederam marcando e ampliando sobremaneira minha percepção das nuances reveladoras do universo artístico, de suas possibilidades múltiplas e principalmente de sua conexão direta com a verdade e com a essência do viver cotidiano ao promover a reflexão dinâmica da realidade e de sua re-construção.

postado por: Diógenes Pereira de Lima 3:29 PM Comments:



Quarta-feira, Agosto 20, 2008

INFÂNCIA NA MARÉ



Da infância na maré me lembro pouco, ou quase nada, da indignação dos moradores frente às condições subhumanas que caracterizavam aquele cotidiano. Minha inocência infantil se envolvia com outras imagens e aspectos do cotidiano, se detia em formas, rítmos e cores que na visão quase sempre onírica do olhar infantil revelavam um espaço mágico e labiríntico formado por uma arquitetura improvisada onde becos saiam em becos, onde portas se confundiam com janelas e onde pessoas e animais conviviam harmoniosamente num ambiente praticamente rural que pra mim era a imagem do paraíso - o lugar onde nasci, cresci e criei laços afetivos, espaciais e pessoais que hojem compõem a minha história, a minha origem.

Enquanto alguns espaços da favela me fascinavam pelas possibilidades lúdicas, oferecendo formas diversificadas de interação física, onde vivências, jogos e brincadeiras infantis se articulavam com uma naturalidade e uma expontaneidade sem igual; outros me apavoravam e me atormentavam pela fragilidade estrutural e pelo perigo sempre iminente.

Pique Bandeira, Pique Esconde, Polícia Ladrão, Carniça, Bento que bento é o frade, Garrafão, Pique Tá, Pique Cola, Bola de Gude, Pião, Chicotinho Queimado, Amarelinha e tantas outras brincadeiras do universo infanto-juvenil que recordo com saudades; tudo acontecia em uma harmonia sem igual, que só a mente infatil livre de condicionamentos e preconceitos era capaz de perceber. Um dia seguia ao outro oferecendo um variado leque de opções numa espantosa explosão de possibilidades interativas. A felecidade era realmente continuada.

Mas ter que acompanhar minha avó ou minha mãe à casa de alguma amiga ou parenta que naquela ocasião vivia na Nova Holanda, ou ter que ir levar lavagem para os porcos no chiquerio com algum vizinho era um verdadeiro tormento.

A atmosfera era apavorante, onde pessoas, em situação ainda mais desumana e humilhante que a nossa lá no pé do morro, se equilibravam em passarelas instáveis e inseguras feitas de restos de madeira que a maré trazia e que, só Deus sabe como, eram arquitetônicamente improvisadas ligando uma palafita à outra.

O cheiro fétido que exalava da mistura composta de lixos e detritos orgânicos jogados a céu aberto pelos moradores da comunidade na maré parecia insuportável no verão. O cheiro subia da lama provocando naúseas e dores de cabeça nos menos acostumados. E se de lá do morro já era insuportável, imagina quem morava nas palafitas quase flutuantes.

Meu Deus! Se eu escorregar e cair na maré? `

Cada passo era cuidadosamente estudado, pois uma madeira em falso podia representar o inevitável mergulho naquela lama imunda que só desaperecia quando a Maré enchia no final da tarde.

Nos rostos das crianças desnutridas, quase sempre nuas ou seminuas, à porta ou à janela de seus barracos, se revelava a face apavorante da miséria e da pobreza que deforma os corpos e corrói a dignidade do ser humano; nos olhares resignados dos adultos, a sombra da indignação. E ainda assim era possível ver aqui e ali um sorriso humilde ao avistar um deconhecido que em sua sinceridade e inocência irradiava uma luz sobrehumana que não existem palavras no vocabulário do homem que possam descrever a magnitude de tal beleza.

Donas Marias, Seus Josés, Seus Pedros, Donas Joanas e tantas outras donas e donos compunham o universo adulto que nas minhas imagens de criança parecia formar uma grande família, que se saudava e se cumprimentava a cada encontro como se se conhecessem há milênios.

- Oi Dona Joana! Como vai?

- Dá lembrança pra fulano, D. Maria!

- Diz pra cicrano passar lá em casa Seu José!

- E a família de beltrano Dona Antônia, vem do norte quando?

Era na luz dessas presenças que me sentia protegido.

E foi testemunhando a força desses lutadores que construíram grande parte da história arquitectônica da cidade maravilhosa trabalhando como obreiros na construção de prédios, pontes, estradas e monumentos; servindo aqui e ali em casas de famílias, bares e restaurantes, que cresci aprendendo a andar e correr sem medo por essas pontes e becos, descobrindo em minha adolescência outras nuances, outras facetas daquele universo rico e dinâmico que na verdade era e ainda é a síntese da nossa cultura.

Foi na esperança estampada nos olhos desses atores sociais que diariamente repetiam a mesma rotina estafante de coletivos e trens lotados indo ainda de madrugada para o trabalho e voltando pra casa exautos no entardecer quase à noitinha, que vislumbrei a possibilidade de mudança e transformação social que hoje impulsiona o meu trabalho de afirmação de nossa identidade e cidadania.

Na satisfação revelada no rosto sofrido, e tão prematuramente envelhecido pela lida, aprendi o valor do dever cumprido. Na importância do humilde sustento oferecido à família através de muita luta é fé num futuro melhor aprendi a valorizar a grandeza do trabalho, enquanto os irritantes autofalantes da Sede, como era conhecida a associação de moradores da Baixa do Sapateiro tocavam, por intermináveis horas: “Ô, Ô, Ô Brasil gente pra frente construindo essa nação, com trabalho permanente, com firmeza e coraçãoãoãoão... É um país que canta, trabalha e se agiganta, é o Brasil do nosso amorrrrrrr...” promovendo o orgulho a uma Pátria Mãe Gentil que nos negava, e infelizmente ainda nos nega, o direito à cidadania plena.

Por Diógenes Lima

postado por: Diógenes Pereira de Lima 10:46 PM Comments:



Hoje dia 20 de agosto de 2008 inicio "Eu Nasci Aqui - Crônicas de um favelado". Pautado na moral e na ética estarei relatando aqui episódios marcantes de minha vida, de minha trajetória artística enquanto cidadão oriundo de uma comunidade de baixa renda, bem como vivências e experiências que marcaram esses meus 42 anos. Espero que minha inciativa promova de alguma maneira a reflexão sobre a exclusão sócio-cultural e artística no nosso país, bem como estimule a reflexão sobre a necessidade de se repensar um Brasil mais justo e digno para nossas crianças e adolescentes.
Agradeço à luz que me guie e saúdo a luz de todos aqueles que acessarem e se interessarem pelos depoimentos e reflexões aqui propostos.

postado por: Diógenes Pereira de Lima 10:39 PM Comments:




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