Espaço para os relatos e vivências de um ator social nascido e criado na Maré, uma das maiores comunidades de baixa renda do nosso país que, mesmo em detrimento às difíceis condições que caracterizam esse cotidiano, conseguiu alcançar a formação universitária e hoje trabalha pela afirmação de sua identidade e da cidadania dos moradores de sua comunidade.
Sexta-feira, Setembro 26, 2008
INOCÊNCIA
Toda às vezes que me vejo diante da “ignorância” me lembro o quanto sou ignorante e do quanto ainda tenho a aprender na vida. E então me vem uma passagem tragicômica significativa da minha vida que sempre faço questão de contar aos que me são queridos.
Gosto de vê-los rindo de mim...Suas risadas me fazem bem, me fazem me lembrar que sou humano.
Quando eu tinha 17 anos passei para Universidade. O primeiro da família. Um dos primeiros da comunidade.
O ano era 1984; e só Deus sabe como alguém da minha origem conseguia essa façanha social. Naquele então, agente passava para o primeiro ou para o segundo semestre do ano seguinte. E no segundo semestre de 1985, já com 18 anos, eu ingressaria na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A vida se abriria como um grande livro para mim.
Mas o que fazer durante os seis meses anteriores?
Meu amado irmão mais velho, que já caminhava na frente com responsabilidade, conseguiu uma vaga para mim como contínuo da empresa em que trabalhava no centro da cidade.
Um novo mundo se descortinava à minha frente.
O primeiro emprego. A cidade que impressionava aquele jovem cidadão que descobria o mundo. Tudo era novidade! Tudo era uma nova descoberta. Pessoas, movimento, ritmo, uma nova dinâmica da vida.
Lembro como se fosse ontem.
Meu patrão que era um cidadão influente e conhecia pessoas influentes ia oferecer um “cocktail” na minha primeira sexta-feira como “oficeboy” e encarregou o “boy” mais experiente de comprar gelo para o tal “cocktail”.
O coitado, se achando muito esperto, passou a sua obrigação ao jovem iniciante Diógenes e como já era quase final do expediente; deu no pé.
- Onde que eu compro gelo? Perguntei inocentemente.
- Na Praça XV. Respondeu o coitado, se achando esperto, antes de pegar o rumo de casa.
Diógenes, a mais nova aquisição da empresa, foi correndo à Praça XV comprar gelo.
Lembram da feira de peixes na praça XV?
Pois é...Foi lá que Diógenes encontrou o gelo. Uma barra de gelo de uns 50 litros que a criatura enrolou em jornais; colocou nas costas e saiu pelo centro da cidade correndo para chegar antes que os convidados chegassem para o tal “cocktail” na firma.
Da Praça XV ao número 119 da Avenida Rio Branco; uma verdadeira via “crucis” na hora do “rush” foi vivenciada por aquele jovem e inocente cidadão.
Enquanto a barra de gelo derretia, e o jornal já de nada servia, congelando minhas costas e minhas mãos; eu corria feito um louco ensandecido pelas ruas do Rio tentando desviar dos transeuntes para cumprir minha obrigação.
Quando encontrava um sinal fechado era uma loucura. Ninguém entendia nada! Aquele garoto maluco carregando uma barra de gelo “gigantesca” nas costas e que às vezes esbarrava em alguém que dava um pulo assustado!
No elevador loatado...A cena era inacreditável! Eu já quase todo molhado com a barra de gelo nas costas e as pessoas esquivadas tentando se livrar do gelo derretendo sem entender nada.
Jamais vou esquecer a cara da secretária/recepcionista da firma quando o elevador abriu e eu surgi com aquela barra de gelo nas costas.
- Garoto o que é isso? Perguntou a recepcionista.
- O gelo. Respondi inocentemente.
- Joga isso lá na privada antes que o seu Paulo César veja. Ele vai ficar louco. É gelo para colocar nos “drinks” garoto...Tem que ser em cubos pequenos. Esclareceu a recepcionista atordoada.
- Eu quebro com a faca! Dei a solução imediatamente.
- Tá louco garoto? Vai...Vai...E chama o motorista do seu Paulo lá na cozinha pra ele ir correndo comprar gelo. Decretou a secretária.
Na segunda-feira quando voltamos a trabalhar pela manhã ainda tinha um pedaço da barra de gelo derretendo na privada do banheiro da cozinha. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Eu só escutei a voz assustadora do chefe ao chegar gritando:
- Manda essa anta desse boy ir lá na minha sala.
Como não tinha sido eu o encarregado da missão. O espertinho do outro boy teve que se apresentar como a anta e ouvir os impropérios do patrão, enquanto que eu fiquei rindo lá na cozinha da lição que a vida deu naquele espertinho.
Meu irmão quase morreu de tanta vergonha e eu até hoje me divirto muito lembrando esse fatídico episódio da minha adorável vida.
Ontem vivi uma experiência estética fascinante e uma experiência de vida singular.
No palco do teatro do Centro de Tecnologia da UFRJ, a Maré, representada dentre outras unidades escolares pelo “Amar é Dança” – Grupo de Dança Teatro da Maré formado por crianças do 6º e 7º anos do Ciep Operário Vicente Mariano.
Impossível não lembrar das etapas do processo até chegar ao palco com a coreografia “Valsa de uma cidade apavorada”.
Um ciclo havia terminado ano passado com a coreografia “O Elixir da Vida” e um grupo de alunos que vivenciaram quatro anos de Oficina de Dança e Expressão corporal não tiveram a sorte que talvez esse novo grupo venha a ter. Quatro anos se passaram e nenhum apoio substancial foi conseguido para ver um desejo sócio-cultural e artístico e o sonho de cidadania daqueles alunos realizado. Fora a apresentação no Teatro Odylo Costa Filho da UERJ na Mostra Municipal da qual o grupo participou pela excelência do trabalho apresentado na mostra regional, nenhuma apresentação significativa aquele grupo formado de tantos jovens talentos, como pode ser observado no vídeo que fiz questão de eternizar no yotube; mereceu. A Dança, enquanto complementação pedagógica na formação do ator social, parece não ser interessante aos olhos de nossas lideranças políticas. Mas enquanto eu tiver saúde e disposição; seguirei fazendo meu trabalho voluntariamente...Pois sei que um dia sei que todo o esforço terá valido a pena!
Ontem alguns estavam lá vendo a continuação do trabalho e uma nova etapa iniciando. Quando os primeiros movimentos começaram a serem escritos no palco não pude deixar de lembrar da etapa inicial, do processo de “seleção” para a formação do novo grupo. Em um universo de quase 1000 alunos o professor Diógenes só tem condições, infra-estruturais e humana, de atender a 20 e forçando um pouco a barra 25. Para que o processo seletivo não seja tão doloroso já que a procura é infinitamente maior que a demanda de vagas no grupo acabei criando alguns subterfúgios que decidi chamar de seleção espontânea. Aceito uma redação com um mínimo de 10 linhas dos interessados onde o mesmo defende sua permanência no grupo. Por que quero participar do grupo e por que mereço fazer parte dele? O filtro natural deixa alguns pelo caminho e a dor de ter que decidir entre um e outro é atenuada. Depois uma aula é oferecida para que o aluno tenha o primeiro contato com essa nova linguagem, a da Dança Contemporânea, e assim, alguns que acreditavam que iam dançar Funk ou qualquer outra dança da moda, acabam se distanciando naturalmente ficando realmente aqueles interessados na nova linguagem. A pontualidade e a freqüência também acabam limando alguns pretendentes do processo e no final tem-se a nova formação do grupo. As redações de todos os envolvidos na fase de seleção para o grupo guardo com carinho. Tenho certeza que quando eu montar o “Eu Nasci Aqui” - Espetáculo com 50 criança e adolescentes, envolvendo profissionais das áreas de iluminação, sonorização, figurino, música e outras áreas do mundo da Arte da própria comunidade; as utilizarei em uma instalação que farei no Hall de entrada de um grande teatro do Rio de Janeiro, do Brasil ou do Mundo. Eles merecem e sei que vou conseguir isso. Minha intuição insiste em me dizer isso.
“Não estou me entendendo e quero fazer dança para ver se consigo me entender”. Eis o fragmento de uma redação que ficou registrado na minha mente dentre tantos outros depoimentos sinceros e surpreendentes, e que veio a minha lembrança no exato momento em que às crianças começaram os primeiros movimentos da coreografia.
No palco emoção, simplicidade, organização, trabalho coletivo, vivência em comunidade, cidadania...E um resultado surpreendente. A Maré dança e dança lindo. Ontem me senti poderoso, capaz de mover montanhas. Ontem me senti um nada perto da grandeza e da beleza que essas crianças alcançaram no palco em expressividade e presença cênica. Ajudei a fazê-los se sentirem verdadeiros cidadãos como tantas maravilhosas pessoas fizeram comigo nos primeiros passos da minha trajetória artística e tenho certeza que essa experiência eles guardarão para sempre em suas almas e como afirma um candidato a uma vaga no BBB no seu perfil (Douglas Nazar) “O que agente faz ecoa por toda a eternidade...”, por isso quero merecer sempre a bondade e a luz divina iluminando meu fazer educacional e minha atuação social para que tudo que eu faça ecoe pela eternidade como algo que somou, que acrescentou. E tenho certeza que essas jovens crianças já não serão as mesmas depois dessa singular vivência, assim como já não sou o mesmo. Cresci.
"NA ESSÊNCIA DO EDUCAR...SENSIBILIDADE NÃO PODE FALTAR"
“Muito funda é a queda! Começa a construção daí debaixo. Seja humilde. Não desprezará Deus um coração arrependido e humilhado”.
“Quando percebas os aplausos do triunfo, que soem também nos teus ouvidos os risos que provocastes com teus fracassos”.
( José María Escrivá)
Ontem foi um dia marcante em minha vida e muito mais marcante ainda em minha trajetória profissional enquanto educador que tem a fortuna de poder trabalhar na comunidade onde nasci; cresci; criei laços afetivos espaciais, pessoais e sentimentais que hoje são a base do meu fazer educacional e da afirmação de minha cidadania.
Cometi um erro grotesco na minha atuação como educador, mas o mais importante é poder reparar com humildade o erro; convertendo-o em aprendizado/ensinamento, para todos os envolvidos – Eu, o educador e meus alunos, os educandos.
Ser humilde até que é fácil quando te humilhas. Difícil é ser humilde quando se é humilhado e manter a dignidade, o valor e o caráter. Erguer a cabeça, levantar com dignidade e seguir a vida buscando um caminhar mais atento, principalmente quando se é referência para crianças, jovens e por que não adultos, que desprovidos de auto-estima, de respeito e cidadania vêm também em você um referencial positivo, a esperança de um futuro melhor.
Não foi fácil peregrinar pelas turmas de alunos atuais do 6º e do 7º anos, que totalizam dez, e pelas turmas do 8º e do 9º ano que totalizam 11 (Quase 1000 alunos) pedindo desculpas e reconhecendo um erro grotesco do meu fazer educacional.
Talvez na empolgação de querer merecer uma vaga no BBB8 com a novidade do site e a criação do meu perfil (DiLima – O Malandro Pós-Moderno do BBB); e a vontade de querer ajudar aqueles que me são queridos tenham me tirado um pouco o foco da minha atuação como educador. Não falo isso como justificativa para nada, apenas como observação do andar da carruagem. Mas o erro foi cometido e a percepção, ainda que um pouco tardia, e a conseqüente tentativa de corrigir o mesmo, estão me fazendo crescer como ser humano e merecer mais uma lição da vida enquanto educador.
- Bom dia... Alguém aqui tem 18 anos de idade?
Um silêncio assustador se sentia em cada turma que eu visitava.
Pelo mínimo que meus alunos me conhecem e pela forma sempre sorridente e performática que perambulo pelos corredores da escola. O Tom daquele bom dia e aquela pergunta traziam algo muito significativo; e boa coisa não era.
- Antes de qualquer coisa eu queria agradecer o carinho que todos vocês me dispensaram solicitando que eu os adicionasse no meu orkut, mas eu cometi um erro grave que, como educador, eu não poderia ter cometido nunca; adicionei todos os que me solicitaram a aceitação. Por que o erro? Como todos vocês sabem o orkut é um site de relacionamentos para adultos e eu adicionei alguns de vocês. Na empolgação minha e de vocês com a possibilidade do prof. vir a ser um BBB; negligenciei esse detalhe; cometi um erro gravíssimo, enquanto educador, que não tem justificativa, apenas pode ser corrigido. Talvez o preço por esse erro eu já tenha pagado, mas agora chegou a hora de corrigi-lo. A partir de hoje estarei excluindo todos vocês do meu orkut. (Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Ouvia-se em uníssono em cada sala que eu passava). Mas eu queria agradecer o carinho e a força que vocês me deram me fazendo me sentir um verdadeiro BBB. Não vou esquecer jamais esse momento da minha vida e a energia positiva que sempre vinha de vocês quando o assunto era o prof. Diógenes no BBB. Espero que quando vocês estejam com 18 anos e na Universidade, como eu consegui, sabe Deus como, vocês possam me adicionar nos seus orkuts e aí agente possa trocar idéias, mensagens e informações. Mas é importante que vocês saibam que isso é ilegal! Vocês estão cometendo um erro, assim como eu cometi adicionando vocês. A internet deve ser utilizada com cuidado, é um universo rico em informações, vivências e interações, e em um simples “clickar” vocês podem ir do paraíso ao inferno. Portanto...Cuidado! Valeu?
Um peso enorme eu tirava da minha consciência. Mas a discussão continua. Por que será que uma pessoa, com o nome sujo na praça, não consegue fazer uma compra pela internet e crianças, jovens e adolescentes conseguem entrar em sites de relacionamentos adultos? A pergunta fica no ar, mas a discussão...Essa merece mais atenção dos educadores, responsáveis e principalmente de nossos governantes.
Minha intuição é incrível.
Hoje decidi dar uma olhada no meu Orkut, coisa que nunca fiz com a devida atenção, e ver as novidades e novas ferramentas que o site de relacionamentos oferece. Sabia que tinha centenas de alunos adicionados, muitos amigos e alguns desconhecidos que na minha “tola” displicência eu ia adicionando sem o menor critério.
Nunca tive tempo para dedicar horas e horas ao site e suas possibilidades. Outras preocupações tomavam o meu tempo na própria internet, como a manutenção atualização do meu Blog e do meu perfil no BBB mais recentemente e também a minha dedicação à redação de minhas crônicas que venho escrevendo a um bom tempo; além dos compromissos profissionais com a Educação. Limitava-me a responder os recados mais recentes. Quase sempre de alguns alunos reclamando atenção do prof. e de amigos saudosos de notícias. Uma simples olhada nos recados que nunca apaguei basta para se certificar disso. Há milhares!
Depois de uma visita atenta ao meu perfil. Meu Deus! Que loucura! Meus contatos, quase todos classificados como amigos já chegavam a quase 1000 pessoas e dentre estas, 70% eram alunos e ex-alunos do Ciep onde leciono na minha comunidade a Maré.
O Choque foi enorme ao deparar com os mais chulos e desprezíveis apelidos que alguns alunos utilizavam que ia de “mulekeprostituto” a “safadinhanovinha”, entre outros que prefiro não mencionar para não ser tão vulgar.
Uma tarde inteira não foi suficiente para dar dignidade ao meu perfil e com certeza terei que ficar alerta de agora em diante. Alias muito alerta para não cair novamente nessa cilada.
O mais preocupante de tudo isso é o fato de que esses jovens que vão de 10 a 16 anos, com raras exceções acima dos 18, não contam com uma família estruturada que os oriente sobre os perigos da internet. E a escola, na medida do possível alerta, mas nem de longe alcança os resultados esperados na tentativa de fazê-los perceber e entender as facilidades que a internet oferece à vida moderna e os perigos que se escondem por trás de um link e de um simples click.
A proliferação das Lan Houses nas comunidades de baixa renda como a Maré sem uma fiscalização adequada e o descaso das autoridades no que se refere à proteção desses jovens e adolescentes é preocupante. Portanto, algo precisa ser feito urgentemente no que se refere à legislação do setor antes que percamos nossos jovens e adolescentes para o caos e a completa desorientação. Por que crianças conseguem criar perfis em sites de relacionamento para adultos? Falta de controle e de vontade política em evitar que isso aconteça. Internet virou terra de ninguém.
Se nas classes mais favorecidas os problemas de crianças, adolescentes e jovens com a internet e seus crimes já abundam, imaginemos a loucura que está acontecendo nas comunidades de baixa renda onde as Lan Houses, quase sempre irregulares, se proliferam sem controle e sem fiscalização.
Excluir quase 40 % dos meus contatos que não agiam de acordo com o que considero correto em uma comunidade de relacionamentos democrática e reorganizá-los foi a sensata e única alternativa que encontrei para tornar meu perfil um pouco mais digno e de agora em diante não poderei vacilar na verificação diária do que está acontecendo nesse mundo virtual do qual faço parte.
Sem dúvida que esse será o assunto tema da minha intervenção na escola nessa semana que se inicia e lamento não ter atentado para esse fato antes, afinal de contas a internet pode vir a ser uma grande aliada ma construção de uma sociedade mais digna, mais justa e mais ética no nosso país, desde que bem aproveitada em suas infinitas possibilidades, tanto de interação, quanto de integração entre os cidadãos e o conhecimento disponível.
Para quem tentava uma vaga no Big Brother Brasil 8 fui muito negligente com meu perfil na comunidade do Orkut e agora entendo até o porquê de tantas coisas não terem acontecido. Que vergonha do meu perfil lá! Mas as coisas acontecem, quando têm que acontecer, no tempo certo, no momento exato em que estamos preparados para vivenciá-las (Toda aprendizagem vale a pena) e hoje, a seriedade que venho estabelecendo na minha preparação em todos os níveis da minha existência e o aceno que o destino tem me dado em determinados momentos do meu caminhar com acontecimentos cheios de sincronismos nessa interessante disputa por uma vaga no BBB9 me levam a crer que essa possibilidade se fortalece a cada dia.
Aparando arestas aqui, caminhando sereno e convicto por ali e buscando na fé e na determinação o bálsamo para a realização de um sonho; me sinto apto a enfrentar os desafios, que ainda faltam com prudência e humildade, a vencer as barreiras existentes e a chegar ao objetivo sonhado. É necessário calma para se atingir as vitórias e, é claro, contar com a ajuda divina sempre. A ajuda divina que hoje deu essa sussurrada básica no meu ouvido: “Que tal dar uma organizada no teu orkut!” Sinto que estou no caminho certo.
“Quem acredita sempre alcança, eu sei...”
Anteontem depois de uma noite de sono tranqüila, e um despertar mágico; acordei para realidade da vida que também tem suas magias e seus encantos apesar dos pesares. Embriagado por uma maravilhosa sensação de bem estar iniciei minha jornada do dia organizando minhas coisas para mais um dia de trabalho. Enquanto fazia o asseio matinal imagens belíssimas do sonho insistiam em voltar à minha mente e as emoções agradabilíssimas vividas pareciam querer me fazer flutuar. Ora bolas! Acordei ou não acordei? A água fria no meu rosto dizia que sim e os compromissos profissionais que começavam a me fazer lembrar de que já estava no mundo real.
Difícil esquecer as emoções vividas naquela noite de sono.
No lugar em que me encontrava no sonho, muitas pessoas pareciam estar se conhecendo naquele exato instante mágico. Uns se aproximavam e se apresentavam uns aos outros e outros apenas se olhavam, se descobriam, se sentiam. Lembro claramente que dancei com alguém que ainda não conheço, mas que no sonho parecia conhecer pela eternidade. Nossos olhares se penetravam num valsar mágico e a sensação era de estar dançando com um anjo. No lugar todos pararam para assistir aquele bailado mágico e a cada movimento, a integração entre nós dois se intensificava.
Tenho certeza que aonde quer que seja que eu reencontre aquele olhar hei de distingui-lo no meio de uma multidão.
À medida que a realidade se apresentava pouco a pouco e as obrigações profissionais iam tomando conta da minha cabeça, uma saudade enorme parecia querer fazer doer meu coração. Saudade do sonho, da dança, daquele olhar, daquela gostosa sensação.
No ônibus indo para o trabalho tudo parecia ter um colorido diferente e a doce lembrança, das emoções vividas no sonho; seguiam mexendo com a minha química corporal.
Pensei nas crianças que ia encontrar na escola. Meus alunos do 7º ano pela manhã e meus alunos do 6º ano à tarde. Senti vontade de acrescentar! Lembrei da dificuldade em que vivem e da realidade cruel que os rodeia. E guerreiro menino - música cantada por Fagner veio à minha lembrança. Já não lembrava mais do sonho...Agora já estava na realidade, mas o bem estar e a sensação ímpar seguiam vibrando positivamente em meu espírito. Comecei a passar a letra da canção para o espanhol na minha cabeça e o resultado me pareceu interessante. Mudei meus planos de aula e decidi colocar essa canção em espanhol no quando retirando algumas palavras para que os alunos completassem. Eu estava seguro que a mensagem chegaria no fundo de seus jovens corações.
“Un hombre también lhora, niña morena. También desea regazo. Palabras amenas. Precisa de cariño. Precisa de ternura. Precisa de un abrazo de la propia candidez. Guerreros son personas. Son fuertes, son débiles. Guerreros son niños en el fondo del pecho. Precisan de un descanso. Precisan de un remanso. Precisan de un sueño que los vuelvan perfectos. Es triste ver ese hombre, guerreno niño con la sombra de su tiempo por sobre sus ombros. Yo veo que él grita. Yo veo que él sangra el dolor que trae en el pecho pues ama y ama y ama. Un hombre se humilla se castran sus sueños. Su sueño es su vida y la vida el trabajo. Y sin su trabajo un hombre no tiene honra. Y sin su honra se muerre y se mata. No da para ser feliz”.
Feliz em poder compartilhar a emoção e a força poética da letra dessa música com meus alunos no processo educacional cheguei à escola. E na porta da Escola sentando em um banco às 07:45 da manhã um aluno que teria aula comigo no primeiro tempo pergunta: “Por que o senhor veio? Por que não volta pra casa?”.
Naquele mágico instante cresci e uma dor enorme no peito só não me fez retornar para casa vencido pelo desânimo por que a Luz que me guia é poderosa. Aproximei-me do aluno e lhe disse em tom quase choroso, me contendo para não ir às lágrimas. “Amiguinho! Quando você não puder dar bom dia para alguém que vem chegando para iniciar um dia de trabalho. Quando você não puder falar alguma positiva para alguém fique calado”. E a criança que com certeza não pensou e não refletiu na força e no impacto que suas palavras teriam me olhou assustado sentindo no meu olhar a dor de alguém que estava muito magoado.
Entrei no colégio e fui à sala dos professores pegar meu material para iniciar a jornada de aulas daquele dia. Pelo caminho muitos sorrisos sinceros de crianças, “oi professor!”; não conseguiam apagar a dor que a força das palavras daquele aluno tinham exercido sobre mim. No trajeto à sala dos professores que pareceu durar uma eternidade pensei nele...No cotidiano caótico em que vive. Será que tem pai? Será que tem mãe? Será que sua família é estruturada? Será que conseguiu dormir tranqüilamente como eu havia dormido já que os tiroteios constantes na comunidade acabam com o sono das pessoas que vivem na Maré e por isso não moro lá hoje? E meu coração ficou ainda mais amargurado. Mas “a vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim”.
A Vida parecia querer me dar uma grande lição. Não é um sonho. É real e muitas vezes crudelíssima. E eu resignado abri meu coração para a vivência e segui ainda meio em choque para a sala de aula. Os alunos me esperavam em alucinada inquietação. Eu sabia que não seria fácil o caminho que escolhi, a Educação. Mas nos últimos tempos a coisa tem estado um tanto quanto estranha. Crianças e jovens parecem não acreditarem mais no amanhã e parecem apenas querer viver o agora. E muitas vezes da maneira mais torpe possível.
Cheguei à porta da sala como sempre faço e esperei, que minha presença ali os fizessem silenciar para que eu pudesse dar o tradicional bom dia e iniciar a aula. O menino que me recebeu na porta da escola estava lá sentado e parecia ter aprendido algo também com o ocorrido. Com a cabeça baixa pensativo parecia desenhar algo.
Quando todos se calaram entrei na sala e falei: “Bom dia! Apesar de ter sido recebido na porta da escola agorinha com a pergunta por que o senhor veio? Por que não volta para casa?” E ter tido vontade realmente de voltar pra casa...Deitar na minha cama de onde eu não deveria ter saído e chorar, chorar e chorar de tristeza. Estou aqui! Mas antes de colocar essa poesia no quadro que vim carinhosamente pensando em compartilhar com vocês gostaria de pedir a vocês todos que sempre que sentirem vontade de dizer algo a alguém pensem duas vezes antes de dizer. Será que isso que vou dizer vai ser bom para essa pessoa? Se você não tiver certeza que isso a fará feliz...Não diga. Não foi “Bom dia” a primeira coisa que ouvi, mas eu terei um bom dia. Por que eu quero e estou aqui para isso. Estou aqui para que esse seja um maravilhoso dia da minha vida. Como será amanhã e assim por diante. Faço o que gosto. Amo o que faço e faço com enorme prazer.
Algumas palmas pareciam querer brotar na sala então falei: “Não quero palmas, quero respeito. Alguns alunos insistiam em querer saber quem tinha dito isso?” E eu respondi: “Quem disse isso não importa!” O que realmente importa é que nos dois tivemos uma grande lição...Eu e esse aluno crescemos e tenho certeza que ele agora vai pensar duas vezes antes de falar algo para alguém. Assim espero.
O aluno foi à minha mesa duas vezes tirar dúvida sobre o exercício proposto com a letra da música e a sua maneira infantil parecia com isso querer me pedir desculpas. A aula foi ímpar...A tradução final da letra da música para o português emocionou a maioria dos alunos e eu saí da sala sorrindo e fazendo as “doidices” que sempre gosto de fazer pelo corredor da escola. Depois de umas três tradicionais piruetas ou um movimento alucinado qualquer; entrei em outra sala e fui recebido com a seguinte e deliciosa frase: “Professor! Sabe por que eu gosto tanto do senhor? Acho que é por que o senhor pensa igual criança.”
Sorri. Dei “Bom dia” e iniciei mais uma aula.